Como Explicar Que Vovó Foi Morar No Céu?

Há poucos meses passamos por uma perda muito grande em nossa família. A vovó paterna das crianças foi morar no céu. Fazia certo tempo que ela estava doentinha, mas o fato é que, por mais que nós já soubéssemos que isso iria acontecer, nunca estamos prontos para encarar a morte.

O que eu nunca havia pensado neste tempo de “preparação” era em como agir com relação ao assunto com minha filha de 3 anos e meio. Dias antes da vovó nos deixar, Raquel vinha perguntando sobre a ausência da vó que já se encontrava hospitalizada em estado grave. Dizia que queria ver ela e que estava com saudades. Explicamos que a vovó estava no Hospital com dodói. Mas como dizer que a vó talvez não voltasse?  

Quando minha sogra veio a óbito de fato, ficamos em estado de choque. Ela era uma figura muito alegre e feliz nas nossas vidas. Amava demais os netos.

Veio a questão: Levar ou não as crianças no velório? A resposta para Samuel veio fácil. Não, ele é muito bebê. E Raquel? Também não a levamos. Ficamos com medo que ela ficasse impressionada. Achamos que era melhor ela guardar a imagem da avó bem. A única conversa que tive com ela no dia foi mais ou menos assim:

  • Mamãe: Raquel, a vovó foi morar no céu… com o Papai do Céu.
  • Raquel: quando ela vai voltar?
  • Mamãe: ela não vai voltar.
  • Raquel: (ela querendo chorar) mas eu quero que ela volte…vou ficar com saudade…

Eu não soube o que dizer. Acabei desviando do assunto. É um momento muito difícil para todos. E as crianças não entendem direito o que está acontecendo. Sabem que algo está diferente, mas não o que.

Pesquisei muito sobre o assunto, conversamos com algumas pessoas, e percebemos que é melhor entrar no assunto apenas quando a criança perguntar. E conforme os dias foram passando e ela foi perguntando, a explicação foi ficando maior.

  • Raquel: A vovó Déda que sabia fazer sopa pra mim. A vovó Déda fazia sagu pra mim né mãe? Quando ela vai voltar?
  • Mamãe: Sim. a vovó foi morar no céu. Com o papai do céu. Virou uma estrelinha.
  • Raquel: Ela é uma estrelinha brilha brilha mamãe?
  • Mamãe: Sim, a mais brilhante lá do céu.
  • Raquel: (ela olha para o céu) tchau vovó!!!

Com o tempo começamos a notar mudanças no comportamento da pequena. Já não queria comer direito. Começou a ficar mais agressiva. Chorando por qualquer coisa. Na escola também fomos chamados para conversar. Segundo as professoras, a pequena tinha medo de que nós não fossemos mais buscá-la ao final do dia. Cada vez que íamos deixá-la na escola era outro momento difícil. Se grudava em nós e não queria entrar.

Procurei um psicólogo que orientou a deixar bem claro para ela que a avó não voltaria mais. Explicar que apenas as pessoas muito doentes e bem velhinhas vão morar no céu. Claro que os jovens também nos deixam. Mas segundo ele, teríamos tempo para que ela fosse crescendo e entendendo o processo de morar no céu.

Ele também aconselhou que em alguns casos levar a criança até o túmulo de quem partiu ajuda a fechar um ciclo. Não fizemos isso. Neste momento, eu acho que acabaria confundindo ainda mais ela. É difícil saber o que é melhor fazer nestes momentos. Resolvemos que apenas uma conversa bastaria. Deixar claro que a vovó não voltaria, mas que o papai, a mamãe e o irmãozinho sempre estariam aqui com ela. Foi isso que ajudou Raquel a entender melhor a situação.

Outro dia, do nada, a Raquel citou a vovó.

  • Raquel: (falando com o desenho dela) eu vou dar beijo e abraço e prometo que vou comer tudo vó.
  • Mamãe: Com quem você está falando Raquel?
  • Raquel: Com a minha vó.
  • Mamãe: Qual vó?
  • Raquel: A vovó Déda.
  • Mamãe: Você sabe onde a vovó está?
  • Raquel: Ela foi morar no céu. Mas eu vou plantar um pé de feijão pra gente ir lá em cima. Daí eu vou dar um beijo e um abraço. Você vai comigo mamãe?

Nessas horas os olhos enchem de água. Saí de perto para não chorar. Uma hora ou outra ela sempre sai com as frases dela, cheias de saudade. Nós, vamos conduzindo da maneira mais sutil possível. Contamos com a escolinha que vem trabalhando o tema morar no céu com a pequena. Mas no fundo, acho que ela ainda não entendeu como é que ela não pode pegar um avião ou subir num pé de feijão, para ir lá no céu só para dar uma abraço e um beijo na vovó e voltar.

Da última vez, perguntou para o vovô.

  • Raquel: Vovô, você sente falta da vovó?
  • Avô – desconversa…
  • Raquel: Vovô, né que a vovó Déda faz muita falta?
  • Avô: (enche os olhos de lágrimas) é…por isso que o vovô reza bastante. Para um dia morar no céu com a vovó.

Vovó foi morar no céu

Como Estamos Hoje Sobre o tema Morar no Céu (Atualização)

Já se passaram cinco meses da morte da avó e Raquel ainda sente muita falta dela. Fala da querida vovó várias vezes por semana. Já não fica tão triste mas em todas as conversas procura uma forma de ir visitar a avó.

Raquel: Mãe, a vovó faz muita falta.
Mamãe: Faz sim filha.
Raquel: Eu sinto muita saudade mãe.
Mamãe: Eu também filha.
Raquel: Mãeee você precisa plantar o pé de feijão pra gente ir ver ela logo.

Raquel fazendo o convite para os convidados da festinha de 4 anos dela.

Raquel: Vou convidar a Alice, a Amabi, a Vovó Déda…
Mamãe: Filha, a vovó Déda não vem. Lembra que ela está lá no céu?
Raquel: Mãe, é só o convite. Vou colocar num balão e aí ele vai até lá nas estrelas.

Como falar sobre a morte para as crianças

Pesquisando mais a respeito do assunto, encontrei um artigo “Como falar sobre a morte para as crianças” do médico psiquiátrico Içami Tiba em que ele explica como devemos abordar o assunto com crianças. Abaixo separei um trecho do texto. Espero que ajude outros pais assim como tem nos auxiliado. 

“O que e como falar depende muito do clima da pergunta. Se ela está brincando e correndo com outras crianças vale a pena dizer que depois explica em um momento melhor. Se ela voltar a perguntar sozinha, então temos que dar a seriedade que a resposta e a criança merecem. Falar claro, baixo e naturalmente prestando atenção nas reações que a criança apresenta. Quem responde é a pessoa que recebeu a pergunta.

Vale a pena garantir que vai responder o que sabe, mas gostaria que a criança falasse antes o que ela mesma pensa sobre a morte. A criança precisa receber uma referência básica, na qual se baseiem todas as respostas. Por exemplo, “quem está vivo, morre”. Após falar, aguarde a resposta da criança antes de continuar a explicar. Temos que respeitar a reação dela. Se ela sair correndo, acabou a conversa, por enquanto, até ela voltar a perguntar.

O que acontece com a pessoa que morre? Podemos responder com os nossos rituais culturais.

Eu também vou morrer? Sim, mas não agora, pois é natural morrer depois de velho.

Por que ela morreu? Dizer o real motivo, como idade, doença, acidente etc. Evitar explicar os crimes hediondos, descrever como morreu, se sofreu muito ou não, pois estas respostas podem ser desnecessárias às crianças que nem perguntaram.

Papai – mamãe, avós, irmãos, pessoas a ela ligadas, até cachorrinho – vão morrer? Sim, mas depois de bem velhinhos.

Atitudes que uma criança nunca teve como beijar na mão ou no rosto, ou abraçar, não devem ser feitas ao falecido, a não ser que ela mesma queira. Nunca por insistência dos mais velhos, mesmo de parentes íntimos.

Se for perguntado por que está triste, o adulto deve explicar que está numa despedida de uma pessoa que nunca mais vai voltar. Quem morre não volta a viver.

Se a criança quiser ver o rosto do falecido, deve ser mostrado, para que ela não crie fantasias que nada tem a ver com a realidade. Ver ajuda a elaborar a perda. Se possível, dizer que parece que o falecido está tranquilo, que não sente nem pensa mais nada.”

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